Em entrevista ao Fazendo Media, ele conta como se envolveu com o rap e as dificuldades de manter um trabalho com autonomia. Ainda que avesso a rótulo, define a inquietação de suas letras como libertária. Para ele, o artista tem que se posicionar e tem uma função social. Não pensa duas vezes ao criticar os governantes cariocas, a mídia e a influência que a opressão da última ditadura militar deixou na formação cultural do país. A seguir você saberá um pouco mais do que pensa esse novo artista, que acredita na transformação individual das pessoas através da música.

* Como se deu sua entrada no rap?

Foi na Batalha do Real, meados de 2012. Eu batalhei com Marechal, Aori, Shawlin, os caras mais antigos. Era foda, o fervo parecia maior porque era uma novidade muito grande. Foi quando eu comecei a fazer Freestyle... MC tem que começar fazendo freestyle, desenvolver seu flow, participar de batalha pra sentir o drama da parada, a adrenalina do bagulho. Foi uma época fundamental para desenvolver flow, mentalidade, mercado, tudo.

* O que inspira os elementos da sua música? Eu sei que você gostava muito de ler filosofia.

É muita filosofia e agressividade né, mano. Eu sou um cara muito agressivo. O que eu passo é essa filosofia de que a gente tem que ir pra cima. Vamos ganhar a parada, vamos para frente, tá ligado? A galera acaba se identificando. Em relação às referências literárias, é muito Nietzsche, Clarice Lispector, a galera existencialista, Fernando Pessoa e outros. Tive a oportunidade de estudar e ter uma faculdade [jornalismo], professores bons pra caralho, oportunidade de ler muito. Tenho também uma curiosidade muito aguçada, o que é fundamental para um MC.

Depois de rimar eu fiquei muito tempo escrevendo máximas filosóficas, que acabaram virando versos e linhas de peso. A galera se identifica muito, cada linha acaba sendo um soco. A literatura está sempre presente, acho que é fundamental ler e se envolver, conquistar um pensamento esférico em relação ao mundo, da vida, questionar. Vir inovador para a cena, ter uma parada a mais a dizer. Não surge ninguém novo há muito tempo, tá ligado? Fazer uma parada nova hoje em dia é muito difícil, tem que fazer uma coisa diferente mesmo. Hoje, graças a muito trabalho, a gente recebe pedidos de show até em bailes de comunidade. Funkeiros e pagadoeiros, várias comunidades da Baixada Fluminense, curtem rap, curtem meu som.

* Por que é difícil de realizar essa renovação?

É difícil cara, o que você lembra ter estourado de música ultimamente? Teve o MV Bill, Emicida, D2, Los Hermanos, mas a gente não vê nada novo surgindo. E estamos começando a atingir o povo. Eu desde pequeno ouço muito pagode e rap, e é foda ver que os caras estão ouvindo meu rap. Ah, mas o rap é um gênero americano: foda-se. Rock também era, e o nosso rock é bom pra caralho hoje. Fazemos a nossa cena, o novo rap RJ está no ar, avisa pra todo mundo.

* Como é essa coisa das rodas de rima no Rio?

Irmão, a gente tinha que tocar só nas ruas! Tocamos em boate e casa de show porque precisamos de dinheiro, mas o ideal era tocar só nas ruas mesmo. A parada é essa, mano: tocar nas ruas sempre, ter as ruas sempre, ouvir o povo sempre, cantar para o povo sempre, ser simples sempre. O povo manda.



* Em relação à grana, como que é com uma produção independente?



Hoje a gente tem a Tudobom Records, que é uma gravadora independente. Formada basicamente por eu, Shadow, que faz tudo e é quase o presidente, e o Mãoli, sócio também da parada e que também faz a maioria dos meus beats. A gente não pode mais esperar uma gravadora, esperar ter dinheiro, porque a nova era chegou. Os artistas hoje são jogadores, tá ligado? A gente precisa pensar, matutar a publicidade da parada. Então você vê os artistas envolvidos do início ao fim e todos os trabalho. E o rap tem tudo para dar certo, porque o jogo do rap é o mais agressivo e competitivo que existe.


* Mas essa coisa de não depender da gravadora é ideológico e para não interferir no seu conteúdo também?

Não é ideológico não, é objetivo: a gente não quer porque não tem, sacou? Na época do D2 tinha gravadora que funcionava, hoje os caras montam uma banda adolescente "colorida", é uma parada muito montada, feia. A gravadora interfere total, foi se desenvolvendo e tornando os artistas deles muito produto. É notório que foi ficando ruim, todo mundo reclama. Se não tiver um pessoal com disposição para criar o próprio sistema e levar para frente a própria gravadora, o bagulho não acontece mais. Aí você vê o Emicida fazendo show pra caralho no mundo inteiro com a banca independente, que é a Laboratório Fantasma, um exemplo para todos do rap nacional. O trabalho do Emicida é totalmente independente. Acaba ganhando muito mais dinheiro, poder e conceito do que quem está em gravadora. É continuar nessa vibe aí do "faça você mesmo". Temos que nos organizar, ganhar mais dinheiro, partir pra cima e vambora.



* Falamos de Racionais, Sabotage, os caras de SP em geral, mas como está o rap do Rio?


A galera do rap de São Paulo já conhece nosso som. A mesma comunidade que contrata Racionais hoje também contrata Ret. A gente não está deixando nada a desejar. Eles têm a filosofia deles e a gente tem a nossa, canta da nossa forma, com a nossa linguagem, e esse é o fluxo. O fervo das rodas é um exemplo de que tudo tá fluindo, o mercado está aquecendo, está ficando tudo muito bonito.



* Você tem foto com o Cateano Veloso, que teve muita representação política em determinada época. Como você vê essa intervenção do artista no cenário político?

Tem que ter, ele sempre tem uma função social. Nas minhas músicas o Vivaz acaba tendo uma função política muito individual, fala muito do indivíduo, mas sempre tem uma questão política para ser dita nos shows. Um papo maneiro para dar para a galera, para fortalecer as rodas dos raps, não deixar ninguém corromper as rodas e multiplicar elas. Fazer a cena para não depender de ninguém. Isso se assemelha muito com a atitude punk. "Ah, mas estamos fudidos de dinheiro". Foda-se, vambora porra, o dinheiro ta logo ali na frente. É só trabalhar. Depois de 1 ano e meio de suor, se fudendo, ralando pra caralho, tentando descobrir flow novo, levada nova, beat novo, tentando produzir coisas de uma forma agradável, sonoridade e tal, a gente vem descobrindo e conquistando nosso espaço. Os Racionais têm a ideologia deles, são mais politizados socialmente, coletivamente, mas é isso, cada um com o seu discurso, mano. O rap é muita coisa, é um gênero musical extremamente rico. Tem espaço para todo mundo.



* Você fala numa das suas letras que a direita é burra e a esquerda é retrógrada. Eu não gosto de rótulo, mas como você se definiria politicamente?

Eu me considero um libertário, tá ligado mano. Eu vivo num mundo capitalista, eu sou capitalista. Racionais é capitalista, cobra cachê, dinheiro. A gente precisa de dinheiro para viver, se não a gente cantava só nas ruas. Não confio em direita ou esquerda, fodam-se! Vamos fazer por nós, fazer por amor, e vamos ganhar o nosso dinheiro. Juntar a galera que quer fazer e realizar, levantar as coisas, levantar os eventos. A gente precisa se fortalecer, ter substância, o mercado do rap está ficando aquecido e grande, está começando a gerar dinheiro. As favelas estão começando a dar atenção pro rap. Daqui a pouquinho é o rap ocupando o espaço do funk nas comunidades. As rodas são só o começo. Esse é só o início da história mesmo.



* A comunidade é fundamental, e qual a mensagem a ser levada para lá?

De que vamos fazer, vamos levantar a cabeça, ter autoestima, trabalhar pra caralho para ganhar nossa grana. Não dá para abaixar a cabeça para quem é patrão, vamos fazer o nosso, nós vamos ser os patrões. Vamos subir, meu irmão. O sistema somos nós também, vamos para cima deles. Somos mais maliciosos, temos mais malandragem. Eles são nerds e estão vencendo o jogo, mas nós vamos ganhar deles. A rua vai ganhar, a comunidade e o povo vão vencer.



* Você acredita em revolução, cara?

A revolução já rola, ela é interna mesmo. Começa do indivíduo, é o cara acordar todo dia cedo e falar: meu irmão, hoje eu vou vencer. É o cara determinar que vai conquistar, perseverar mesmo. Lembrar dos sonhos e correr atrás. Botar a faca no dente e ir para cima. Esse é o discurso do rap desde sempre: nós vamos vencer. Nosso dinheiro vai ser muito maior que o deles, vamos tomar tudo. Se trabalhar firme, sério, focado, com fé, a gente chega aonde quer chegar.



* O que você acha do Brasil como país?

É uma roubalheira fudida, um país de gângsters, sacou? O governador e o prefeito que mandam no Rio de Janeiro são gângsters. Os partidos são facções, existe muita ajuda e coisa boa sendo feita, mas não é suficiente. Precisamos dizer pro cara humilde que sonha em ser vereador: irmão você pode, você pode ser vereador e pode mudar sua sociedade. Estimular a galera do povo, dizer que eles podem mudar. Erga a cabeça e parta para cima. O Lula é um exemplo, veio lá de baixo conquistando tudo. Se você visse de onde o Lula veio você ia dizer que ele não chegaria a lugar nenhum. E chegou. Chegou à presidência, é isso irmão. A gente pode, a gente tem sapiência e vontade para isso. Eu acho que o rap é o estímulo, é o cara ouvir ali a parada e dizer: eu posso, eu sou foda, eu sou zica, como os caras fala mem São Paulo. Vamos partir pra cima dos caras sem medo. É mentira que eles sabem mais que a gente, é mentira. A gente sabe ler também, pensar, raciocinar, empreender. Vamos construir, nós somos fodas.



* Você falou em Sociedade do Espetáculo, como você vê o trabalho da mídia no Brasil?

A mídia é isso, lamentável quem espera alguma coisa a mais dela. Sempre defendeu os seus interesses, mas aí o rap chega na mídia vagabundo reclama. Não tem que reclamar meu irmão, tem que ocupar os lugares, tá ligado? "Ah mas o Ret ficou famoso, foi para televisão": meu irmão, a gente tem que ir para a MTV, ir para Globo, tem que falar o que a gente acha, sacou? Não vamos para esses canais ainda porque não temos contato com gravadora, então eles recusam, óbvio, porque gravadora é o que dá dinheiro para eles. Acaba que o rap underground fica de certa forma rejeitado, mas é questão de tempo. A gente viveu muito tempo se fazendo de coitado, coitado é o caralho! Vamos pra cima deles. Quem sofreu mesmo, quem teve algum momento de crise na vida, quando sai dela sai que nem um bicho, sacou? A gente já se fudeu muito, chegou o momento de tomar nosso espaço de volta.



* Quando você diz isso tem a ver com a ditadura militar, acha que ela paralisou as lutas e essa renovação cultural que você já citou?

Acho que tem tudo a ver, a ditadura travou todo mundo. Nossos pais são travados pela ditadura, são cria de lá. E agora a gente acha que está tudo tranquilo porque rolou um governo ali e está tudo bem. Só que não está tudo bem! Agora é um capitalismo selvagem. Mas ninguém é mais selvagem que o povo. Ninguém raciocina melhor que o povo. E o rap tem isso de você chegar e ficar falando pro cara que a gente pode, e o cara ver que pode. Daqui a pouco quem está mandando é ele. E quem mudou e estufou o seu peito foi o rap. Quem tem que mandar é o povo. São os caras que têm mais perspicácia, e o rap é muito isso, muito flow. Quem tem mais flow é o cara que observa mais. Nerd não vai saber rimar, nerd não sabe de nada. Nerd não pode mandar no povo, sacou? Está tudo errado! Foco, força e fé, como diz o Projota, lá em são Paulo. O Projota é foda, mano, o cara trampa, cada show para ele é uma guerra. Ele quer ver o público animado, ver o público sair dali forte. O rap é isso, quase uma catequização mesmo.



* Como estão os projetos, turnês e sua entrada na mídia social.

Vamos invadir, mano. Hoje é a era da internet, eu fico lá igual a um doente trabalhando para caralho para fortalecer o conceito da parada. Para organizar a nossa estrutura, fazer a gente se vingar. Não adianta falar: pô, mas os caras são fodas, eles têm tudo organizado. Foda-se, a gente se organiza e fica maior que eles. A gente precisa aprender a confiar no nosso cérebro, sacou? Vamos confiar no nosso raciocínio, não dá para nerd mandar no mercado. E o nosso ritmo de turnê tá fluindo bem. Nosso e-mail não para. A procura por shows é diária, frenética. Estamos começando a viajar o Brasil todo. Dia (24) de 04 de madrugada a gente vai lá para Floripa. O Brasil está procurando o rap. O Brasil quer consumir rap.



* Muita gente associa a maconha e as drogas com o movimento rap, o que você pensa sobre a legalização?

Eu penso que se legalizarem a maconha, meu irmão, a gente tem que estar pronto para fazer os nossos coffee shops. Porque se legalizar e deixar na mão dos haules não vai adiantar nada. Temos que ser os donos dos lugares que vendem maconha, e até lá estarmos com o espírito empreendedor vivo, ativo, sagaz, vivaz, para conseguir dominar o mercado. Porque quem fuma maconha e sabe qual é a melhor somos nós. Eu espero que daqui a cinco anos a maconha seja legalizada, e que a minha banca Tudobom tenha um coffee shop. Você acha que o Cabral entende alguma coisa de maconha? Enfim. A maconha é só mais uma substância, o próprio Fernando Henrique falou isso naquele documentário Quebrando tabu: a civilização não funciona sem droga, todo mundo sempre vai usar droga. Eu espero, sinceramente, que no momento em que o governo legalizar a maconha quem esteja plantando e vendendo sejamos nós. O governo não entende de maconha, nerd não entende de maconha. Já descriminalizaram e agora o próximo passo é regulamentar, e o sonho é a rua poder vender. Chega de ficar na mão dos haules, dos nerds, dos colonizadores, a parada é nossa. O Brasil é nosso. E o rap existe pra lembrar o povo disso. ">
                       
           
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Jornal Rio De Janeiro
Desde: 23/01/2014      Publicadas: 1      Atualização: 23/01/2014

Capa |  Ret, Novo maior Rapper

Ret, a nova voz carioca uberabense do rap nacional"


Ret, a nova voz carioca uberabense do rap nacional

O rap carioca está bombando e isso é só o começo da história, afirma Ret, rapper revelação do Rio de Janeiro. Volta e meia está nas chamadas "rodas de rima" [Circuito Carioca de Ritmo e Poesia " CCRP], eventos dos quais participou da construção, que ocorrem todos os dias em todo o Estado fluminense. Com o lema "vamos fazer por nós mesmos", tem encantado o público jovem com as suas mensagens. São mais de 90 mil seguidores em seu perfil no Facebook, ferramenta que tem ajudado na divulgação do seu trabalho independente. Lançou seu novo CD às vésperas do natal e pouco mais de um mês depois já havia quase 20 mil downloads, e sua música Neurótico de Guerra está chegando a meio milhão de views no Itunes já é exibido em canais como a MTV.

Em entrevista ao Fazendo Media, ele conta como se envolveu com o rap e as dificuldades de manter um trabalho com autonomia. Ainda que avesso a rótulo, define a inquietação de suas letras como libertária. Para ele, o artista tem que se posicionar e tem uma função social. Não pensa duas vezes ao criticar os governantes cariocas, a mídia e a influência que a opressão da última ditadura militar deixou na formação cultural do país. A seguir você saberá um pouco mais do que pensa esse novo artista, que acredita na transformação individual das pessoas através da música.

* Como se deu sua entrada no rap?

Foi na Batalha do Real, meados de 2012. Eu batalhei com Marechal, Aori, Shawlin, os caras mais antigos. Era foda, o fervo parecia maior porque era uma novidade muito grande. Foi quando eu comecei a fazer Freestyle... MC tem que começar fazendo freestyle, desenvolver seu flow, participar de batalha pra sentir o drama da parada, a adrenalina do bagulho. Foi uma época fundamental para desenvolver flow, mentalidade, mercado, tudo.

* O que inspira os elementos da sua música? Eu sei que você gostava muito de ler filosofia.

É muita filosofia e agressividade né, mano. Eu sou um cara muito agressivo. O que eu passo é essa filosofia de que a gente tem que ir pra cima. Vamos ganhar a parada, vamos para frente, tá ligado? A galera acaba se identificando. Em relação às referências literárias, é muito Nietzsche, Clarice Lispector, a galera existencialista, Fernando Pessoa e outros. Tive a oportunidade de estudar e ter uma faculdade [jornalismo], professores bons pra caralho, oportunidade de ler muito. Tenho também uma curiosidade muito aguçada, o que é fundamental para um MC.

Depois de rimar eu fiquei muito tempo escrevendo máximas filosóficas, que acabaram virando versos e linhas de peso. A galera se identifica muito, cada linha acaba sendo um soco. A literatura está sempre presente, acho que é fundamental ler e se envolver, conquistar um pensamento esférico em relação ao mundo, da vida, questionar. Vir inovador para a cena, ter uma parada a mais a dizer. Não surge ninguém novo há muito tempo, tá ligado? Fazer uma parada nova hoje em dia é muito difícil, tem que fazer uma coisa diferente mesmo. Hoje, graças a muito trabalho, a gente recebe pedidos de show até em bailes de comunidade. Funkeiros e pagadoeiros, várias comunidades da Baixada Fluminense, curtem rap, curtem meu som.

* Por que é difícil de realizar essa renovação?

É difícil cara, o que você lembra ter estourado de música ultimamente? Teve o MV Bill, Emicida, D2, Los Hermanos, mas a gente não vê nada novo surgindo. E estamos começando a atingir o povo. Eu desde pequeno ouço muito pagode e rap, e é foda ver que os caras estão ouvindo meu rap. Ah, mas o rap é um gênero americano: foda-se. Rock também era, e o nosso rock é bom pra caralho hoje. Fazemos a nossa cena, o novo rap RJ está no ar, avisa pra todo mundo.

* Como é essa coisa das rodas de rima no Rio?

Irmão, a gente tinha que tocar só nas ruas! Tocamos em boate e casa de show porque precisamos de dinheiro, mas o ideal era tocar só nas ruas mesmo. A parada é essa, mano: tocar nas ruas sempre, ter as ruas sempre, ouvir o povo sempre, cantar para o povo sempre, ser simples sempre. O povo manda.



* Em relação à grana, como que é com uma produção independente?



Hoje a gente tem a Tudobom Records, que é uma gravadora independente. Formada basicamente por eu, Shadow, que faz tudo e é quase o presidente, e o Mãoli, sócio também da parada e que também faz a maioria dos meus beats. A gente não pode mais esperar uma gravadora, esperar ter dinheiro, porque a nova era chegou. Os artistas hoje são jogadores, tá ligado? A gente precisa pensar, matutar a publicidade da parada. Então você vê os artistas envolvidos do início ao fim e todos os trabalho. E o rap tem tudo para dar certo, porque o jogo do rap é o mais agressivo e competitivo que existe.


* Mas essa coisa de não depender da gravadora é ideológico e para não interferir no seu conteúdo também?

Não é ideológico não, é objetivo: a gente não quer porque não tem, sacou? Na época do D2 tinha gravadora que funcionava, hoje os caras montam uma banda adolescente "colorida", é uma parada muito montada, feia. A gravadora interfere total, foi se desenvolvendo e tornando os artistas deles muito produto. É notório que foi ficando ruim, todo mundo reclama. Se não tiver um pessoal com disposição para criar o próprio sistema e levar para frente a própria gravadora, o bagulho não acontece mais. Aí você vê o Emicida fazendo show pra caralho no mundo inteiro com a banca independente, que é a Laboratório Fantasma, um exemplo para todos do rap nacional. O trabalho do Emicida é totalmente independente. Acaba ganhando muito mais dinheiro, poder e conceito do que quem está em gravadora. É continuar nessa vibe aí do "faça você mesmo". Temos que nos organizar, ganhar mais dinheiro, partir pra cima e vambora.



* Falamos de Racionais, Sabotage, os caras de SP em geral, mas como está o rap do Rio?


A galera do rap de São Paulo já conhece nosso som. A mesma comunidade que contrata Racionais hoje também contrata Ret. A gente não está deixando nada a desejar. Eles têm a filosofia deles e a gente tem a nossa, canta da nossa forma, com a nossa linguagem, e esse é o fluxo. O fervo das rodas é um exemplo de que tudo tá fluindo, o mercado está aquecendo, está ficando tudo muito bonito.



* Você tem foto com o Cateano Veloso, que teve muita representação política em determinada época. Como você vê essa intervenção do artista no cenário político?

Tem que ter, ele sempre tem uma função social. Nas minhas músicas o Vivaz acaba tendo uma função política muito individual, fala muito do indivíduo, mas sempre tem uma questão política para ser dita nos shows. Um papo maneiro para dar para a galera, para fortalecer as rodas dos raps, não deixar ninguém corromper as rodas e multiplicar elas. Fazer a cena para não depender de ninguém. Isso se assemelha muito com a atitude punk. "Ah, mas estamos fudidos de dinheiro". Foda-se, vambora porra, o dinheiro ta logo ali na frente. É só trabalhar. Depois de 1 ano e meio de suor, se fudendo, ralando pra caralho, tentando descobrir flow novo, levada nova, beat novo, tentando produzir coisas de uma forma agradável, sonoridade e tal, a gente vem descobrindo e conquistando nosso espaço. Os Racionais têm a ideologia deles, são mais politizados socialmente, coletivamente, mas é isso, cada um com o seu discurso, mano. O rap é muita coisa, é um gênero musical extremamente rico. Tem espaço para todo mundo.



* Você fala numa das suas letras que a direita é burra e a esquerda é retrógrada. Eu não gosto de rótulo, mas como você se definiria politicamente?

Eu me considero um libertário, tá ligado mano. Eu vivo num mundo capitalista, eu sou capitalista. Racionais é capitalista, cobra cachê, dinheiro. A gente precisa de dinheiro para viver, se não a gente cantava só nas ruas. Não confio em direita ou esquerda, fodam-se! Vamos fazer por nós, fazer por amor, e vamos ganhar o nosso dinheiro. Juntar a galera que quer fazer e realizar, levantar as coisas, levantar os eventos. A gente precisa se fortalecer, ter substância, o mercado do rap está ficando aquecido e grande, está começando a gerar dinheiro. As favelas estão começando a dar atenção pro rap. Daqui a pouquinho é o rap ocupando o espaço do funk nas comunidades. As rodas são só o começo. Esse é só o início da história mesmo.



* A comunidade é fundamental, e qual a mensagem a ser levada para lá?

De que vamos fazer, vamos levantar a cabeça, ter autoestima, trabalhar pra caralho para ganhar nossa grana. Não dá para abaixar a cabeça para quem é patrão, vamos fazer o nosso, nós vamos ser os patrões. Vamos subir, meu irmão. O sistema somos nós também, vamos para cima deles. Somos mais maliciosos, temos mais malandragem. Eles são nerds e estão vencendo o jogo, mas nós vamos ganhar deles. A rua vai ganhar, a comunidade e o povo vão vencer.



* Você acredita em revolução, cara?

A revolução já rola, ela é interna mesmo. Começa do indivíduo, é o cara acordar todo dia cedo e falar: meu irmão, hoje eu vou vencer. É o cara determinar que vai conquistar, perseverar mesmo. Lembrar dos sonhos e correr atrás. Botar a faca no dente e ir para cima. Esse é o discurso do rap desde sempre: nós vamos vencer. Nosso dinheiro vai ser muito maior que o deles, vamos tomar tudo. Se trabalhar firme, sério, focado, com fé, a gente chega aonde quer chegar.



* O que você acha do Brasil como país?

É uma roubalheira fudida, um país de gângsters, sacou? O governador e o prefeito que mandam no Rio de Janeiro são gângsters. Os partidos são facções, existe muita ajuda e coisa boa sendo feita, mas não é suficiente. Precisamos dizer pro cara humilde que sonha em ser vereador: irmão você pode, você pode ser vereador e pode mudar sua sociedade. Estimular a galera do povo, dizer que eles podem mudar. Erga a cabeça e parta para cima. O Lula é um exemplo, veio lá de baixo conquistando tudo. Se você visse de onde o Lula veio você ia dizer que ele não chegaria a lugar nenhum. E chegou. Chegou à presidência, é isso irmão. A gente pode, a gente tem sapiência e vontade para isso. Eu acho que o rap é o estímulo, é o cara ouvir ali a parada e dizer: eu posso, eu sou foda, eu sou zica, como os caras fala mem São Paulo. Vamos partir pra cima dos caras sem medo. É mentira que eles sabem mais que a gente, é mentira. A gente sabe ler também, pensar, raciocinar, empreender. Vamos construir, nós somos fodas.



* Você falou em Sociedade do Espetáculo, como você vê o trabalho da mídia no Brasil?

A mídia é isso, lamentável quem espera alguma coisa a mais dela. Sempre defendeu os seus interesses, mas aí o rap chega na mídia vagabundo reclama. Não tem que reclamar meu irmão, tem que ocupar os lugares, tá ligado? "Ah mas o Ret ficou famoso, foi para televisão": meu irmão, a gente tem que ir para a MTV, ir para Globo, tem que falar o que a gente acha, sacou? Não vamos para esses canais ainda porque não temos contato com gravadora, então eles recusam, óbvio, porque gravadora é o que dá dinheiro para eles. Acaba que o rap underground fica de certa forma rejeitado, mas é questão de tempo. A gente viveu muito tempo se fazendo de coitado, coitado é o caralho! Vamos pra cima deles. Quem sofreu mesmo, quem teve algum momento de crise na vida, quando sai dela sai que nem um bicho, sacou? A gente já se fudeu muito, chegou o momento de tomar nosso espaço de volta.



* Quando você diz isso tem a ver com a ditadura militar, acha que ela paralisou as lutas e essa renovação cultural que você já citou?

Acho que tem tudo a ver, a ditadura travou todo mundo. Nossos pais são travados pela ditadura, são cria de lá. E agora a gente acha que está tudo tranquilo porque rolou um governo ali e está tudo bem. Só que não está tudo bem! Agora é um capitalismo selvagem. Mas ninguém é mais selvagem que o povo. Ninguém raciocina melhor que o povo. E o rap tem isso de você chegar e ficar falando pro cara que a gente pode, e o cara ver que pode. Daqui a pouco quem está mandando é ele. E quem mudou e estufou o seu peito foi o rap. Quem tem que mandar é o povo. São os caras que têm mais perspicácia, e o rap é muito isso, muito flow. Quem tem mais flow é o cara que observa mais. Nerd não vai saber rimar, nerd não sabe de nada. Nerd não pode mandar no povo, sacou? Está tudo errado! Foco, força e fé, como diz o Projota, lá em são Paulo. O Projota é foda, mano, o cara trampa, cada show para ele é uma guerra. Ele quer ver o público animado, ver o público sair dali forte. O rap é isso, quase uma catequização mesmo.



* Como estão os projetos, turnês e sua entrada na mídia social.

Vamos invadir, mano. Hoje é a era da internet, eu fico lá igual a um doente trabalhando para caralho para fortalecer o conceito da parada. Para organizar a nossa estrutura, fazer a gente se vingar. Não adianta falar: pô, mas os caras são fodas, eles têm tudo organizado. Foda-se, a gente se organiza e fica maior que eles. A gente precisa aprender a confiar no nosso cérebro, sacou? Vamos confiar no nosso raciocínio, não dá para nerd mandar no mercado. E o nosso ritmo de turnê tá fluindo bem. Nosso e-mail não para. A procura por shows é diária, frenética. Estamos começando a viajar o Brasil todo. Dia (24) de 04 de madrugada a gente vai lá para Floripa. O Brasil está procurando o rap. O Brasil quer consumir rap.



* Muita gente associa a maconha e as drogas com o movimento rap, o que você pensa sobre a legalização?

Eu penso que se legalizarem a maconha, meu irmão, a gente tem que estar pronto para fazer os nossos coffee shops. Porque se legalizar e deixar na mão dos haules não vai adiantar nada. Temos que ser os donos dos lugares que vendem maconha, e até lá estarmos com o espírito empreendedor vivo, ativo, sagaz, vivaz, para conseguir dominar o mercado. Porque quem fuma maconha e sabe qual é a melhor somos nós. Eu espero que daqui a cinco anos a maconha seja legalizada, e que a minha banca Tudobom tenha um coffee shop. Você acha que o Cabral entende alguma coisa de maconha? Enfim. A maconha é só mais uma substância, o próprio Fernando Henrique falou isso naquele documentário Quebrando tabu: a civilização não funciona sem droga, todo mundo sempre vai usar droga. Eu espero, sinceramente, que no momento em que o governo legalizar a maconha quem esteja plantando e vendendo sejamos nós. O governo não entende de maconha, nerd não entende de maconha. Já descriminalizaram e agora o próximo passo é regulamentar, e o sonho é a rua poder vender. Chega de ficar na mão dos haules, dos nerds, dos colonizadores, a parada é nossa. O Brasil é nosso. E o rap existe pra lembrar o povo disso.


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